A Rede é o Computador

admin | Artigo | Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Em seu livro “Telecosmo: A Era Pós Computador, Como a Largura de Banda Infinita Revolucionará o Mundo”, George Gilder levanta algumas questões muito pertinentes. Você já pensou como será quando os dispositivos acessarem a rede com uma banda sem limite? Ou seja, quando o seu celular, ou TV, por exemplo, navegarem pela internet de forma instantânea, sem tempo de download. Clicou, abriu.
Cenário bacana, mas confundir a mudança de velocidade com a mudança em si, é olhar apenas para a árvore. Aparentemente simples, esta progressão no aumento da velocidade vai quebrar o paradigma da computação de hoje, sobre o qual se sustenta economia da informação em que vivemos. Vejamos o modelo atual, o computador em que você acessa a internet tem um processador potente, um disco rígido de dezenas, ou mesmo centenas de Gigabytes, mais alguns milhares de Megabytes de RAM, uma placa de vídeo com maior poder de processamento do que todo o seu computador de 5 anos atrás e mais uma série de “pindurucalhos”. Pois bem, no dia em que a largura de banda for absolutamente confiável, abundante e barata, não vamos mais precisar de nada disso. Essa é a mudança.
Quando seus comandos, de voz, teclado, ou gestuais forem transferidos para a rede na velocidade da luz e um servidor do outro lado responder rápido assim, não precisaremos de dispositivos que façam o processamento, ou mesmo que armazenem dados localmente. Afinal, será como se estivéssemos acessando o nosso HD. O que precisaremos será apenas um dispositivo de entrada e saída de dados. Uma tela “wireless” sensível ao toque com fones de ouvido e microfone já serviria. Na realidade, os dados que transitarão na rede serão apenas o que você vê na tela, o que ouve e os dados que você digita/clica. Isso sendo instantâneo e transparente, será como acessar um PC hoje. Visualize um iPhone (ele de novo), com o dobro da tela e um quarto da espessura, mas com o poder de processamento de um Data Center. Isso já seria uma referência.
Sem incluir processadores que consomem enormes quantias de energia, ou mesmo discos rígidos volumosos e todo o aparato que acompanha nossos PCs de hoje, os dispositivos se tornarão mais leves e baratos. Como todo o investimento em processamento e armazenamento será feito em servidores remotos, não precisaremos nos preocupar em fazer upgrade de máquinas para aumentar o disco, ou a velocidade do processador. Estas “telas” que usaremos, poderiam nos acompanhar sempre, pois serão facilmente portáveis. Ou não, já que a partir de qualquer um destes dispositivos conectados à rede, com identificação apropriada, óbvio, teremos acesso ao nosso “desktop” particular, ou corporativo. Imagine telas disponíveis em assentos de metrô, táxis, mesas de cafés, salas de espera, enfim, qualquer lugar. Você poderá visitar um amigo e, ao invés de levar um DVD, ou melhor ainda, um disco Blu-Ray, para assistirem juntos, você acessa o seu “desktop” da casa dele e assistem um streaming direto da sua coleção. As possibilidades são infinitas.
É o retorno aos terminais burros, embasados na máxima da Sun Microsystems de que “The Network is the computer”. Nós já vivemos isso hoje com os serviços online. Vide o Google Apps, que oferece gratuitamente aplicativos online que atendem a 90% das necessidades de quem usa um Microsoft Word, ou Excel. No Google Apps, tudo o que você digita, não fica armazenado na sua máquina fica nos servidores do Google. Ou seja, o processamento, o armazenamento, fica na rede. Seu PC faz apenas o “input” e o “output”.
Tudo caminha nesta direção. Veja a batalha, agora terminada, entre HD DVD e Blu-Ray. O próprio Bill Gates afirmou que testemunhávamos a última guerra de padrões de mídia física. Não haverá próxima, pois, em breve, todo o conteúdo estará online. Você não adquirirá o produto físico, o disco com o filme. Apenas pagará pelo direito de assisti-lo e poderá fazê-lo de qualquer lugar. São produtos tornando-se serviços.
O que vemos é um retorno aos serviços e esse é um caminho comum na história. Conceitos que surgiram como serviços, tornaram-se produtos e hoje, ou amanhã, voltarão a ser serviços. Alguns exemplos são clássicos:
• Antigamente, contratava-se uma secretária para atender o telefone e anotar recados, nos anos 70 e 80 as substituímos pelas secretárias eletrônicas, mais recentemente, correio de voz passou a ser um serviço embutido na rede.
• Bibliotecas (que eram e são um serviço) viraram as “Delta-Larousse” ou “Barsas” (produtos que minha geração exigia que os pais comprassem e que hoje, muito provavelmente, acumulam poeira) atualmente foram substituídas pelo Google e a Wikipedia (serviços uma vez mais).
A lista de exemplos não teria fim.
Esse cenário será a apoteose das redes, mas, do ponto de vista prático, é importante vislumbramos os impactos do incremento exponencial da largura de banda em nossas vidas tanto quanto em nossas empresas. Pense que tipo de mudanças sua indústria sofrerá quando o custo da largura de banda tender a zero. Antecipe-se e não pense que as mudanças tardarão. Há pouco mais de dez anos, eu conectava a BBSs a 9.600bps. Hoje, é comum em países como o Japão o acesso residencial à internet a 100Mbps. Ou seja, em pouco mais de uma década a velocidade cresceu aproximadamente 11.000 vezes. Imagine como será daqui a dez anos…
De forma darwiniana, todos terão de adaptar-se a abundância de largura de banda. Por esse prisma a posição da Microsoft não é nada confortável. Com um negócio de 58 bilhões de dólares embasado fortemente na venda de aplicativos como o Office, como você reagiria se, de repente aparecesse um Google e oferecesse esses aplicativos como serviços gratuitos?
No livro, Gilder não elenca receitas de bolo, apenas delineia um cenário que se aproxima cada vez mais rápido. Cabe a nós, que estamos construindo a economia das próximas décadas, nos prepararmos ou não. A Microsoft está correndo atrás do prejuízo tentando comprar o Yahoo!. E você, como sua empresa reagirá às mudanças que a largura de banda infinita causará a sua indústria?

Leonardo Dias

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